A indústria de energia atravessa um processo de transformação impulsionado por descarbonização, digitalização e descentralização da geração. Esses movimentos ampliaram eficiência e diversificaram fontes, mas também vêm reconfigurando o perfil de risco do setor, com exposições mais interligadas, dinâmicas menos previsíveis e impactos relevantes sobre a continuidade operacional e financeira.
Nesse contexto, a gestão de risco torna-se mais complexa. Elementos antes analisados de forma relativamente isolada – como falhas técnicas, eventos climáticos ou mudanças regulatórias – passam a se combinar, criando efeitos em cadeia capazes de se propagar rapidamente por ativos, contratos e resultados.
Para lideranças do setor, a agenda deixa de se concentrar apenas na mitigação de eventos pontuais e passa a incorporar perguntas mais amplas: como diferentes riscos se conectam, com que velocidade podem se materializar e quais são seus impactos.
Riscos interdependentes no setor de energia
O setor sempre operou em ambientes de risco. O que se observa hoje é uma intensificação da interdependência entre essas exposições.
O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC aponta aumento significativo da probabilidade de eventos climáticos com impacto direto sobre infraestruturas críticas, incluindo geração e transmissão de energia, com tendência de agravamento nas próximas décadas.
Esses eventos costumam gerar efeitos combinados, como:
- impactos sobre ativos físicos essenciais;
- pressão sobre contratos de fornecimento e desempenho;
- acionamento de mecanismos regulatórios e penalidades;
- necessidade de respostas operacionais complexas.
De forma semelhante, falhas em ativos como subestações, parques eólicos, usinas solares ou sistemas de controle tendem a extrapolar a operação imediata, alcançando compromissos contratuais de longo prazo, exigências regulatórias e expectativas crescentes de resiliência por parte de investidores e da sociedade.
No Brasil, a ANEEL mantém a continuidade do fornecimento como um dos principais eixos de fiscalização, com reflexos diretos em penalidades, concessões e exigências adicionais de investimento em confiabilidade.
Impactos econômicos e decisões executivas
Para lideranças do setor, a análise de risco tem incorporado, de forma mais explícita, dimensões financeiras, contratuais e reputacionais.
Estudos da McKinsey indicam que interrupções relevantes em ativos energéticos podem gerar perdas entre 5% e 20% do EBITDA anual, dependendo da duração do evento, do desenho contratual e da exposição regulatória envolvida.
A disseminação de contratos de longo prazo, como Power Purchase Agreements (PPAs), contribui para previsibilidade de receita, mas também reduz margens de manobra operacional. Interrupções recorrentes ou mal geridas podem:
- pressionar margens;
- gerar disputas contratuais;
- influenciar custo de capital;
- afetar decisões de investidores e financiadores.
O Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, destaca que falhas de continuidade em infraestrutura crítica estão entre os fatores com maior impacto sobre confiança institucional e atratividade de projetos, especialmente em mercados emergentes. Em um setor essencial, aspectos reputacionais tendem a influenciar processos de licenciamento, autorizações e estratégias de crescimento.
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Transição energética e o perfil de risco
A incorporação acelerada de renováveis introduz ativos com histórico operacional mais curto. Parques solares, eólicos offshore, sistemas de armazenamento e redes inteligentes operam com séries históricas limitadas, modelos de manutenção ainda em evolução e maior dependência de software, conectividade e dados.
De acordo com o Swiss Re Institute, a combinação entre maior variabilidade climática e bases históricas reduzidas desafia modelos tradicionais de avaliação de risco e transferência, exigindo revisões em critérios de cobertura, retenção e precificação.
O desenho inadequado de programas de seguro pode se tornar, ele próprio, uma fonte adicional de exposição, seja por lacunas de cobertura, desalinhamento com contratos ou incompatibilidade com a capacidade financeira da organização. Por outro lado, estruturas bem calibradas tendem a influenciar governança, previsibilidade financeira e resiliência operacional.
Boas práticas em um cenário de risco ampliado
Diante desse ambiente, algumas práticas têm se mostrado recorrentes entre organizações que buscam maior resiliência:
- Visão integrada de riscos,conectando exposições operacionais, climáticas, financeiras, jurídicas e tecnológicas.
- Uso de dados, cenários e simulações, com modelagens de estresse climático e operacional para apoiar decisões de investimento e contingência.
- Estratégia estruturada de transferência de risco,tratando o seguro como parte da arquitetura de decisão, e não apenas como proteção financeira.
Quando alinhada à exposição real dos ativos e contratos, a transferência de risco contribui para preservar liquidez, sustentar compromissos financeiros e dar previsibilidade à recuperação em eventos severos.
O que isso muda para quem decide
Em um setor cada vez mais exposto, a capacidade de antecipar cenários e compreender as conexões entre clima, ativos, contratos, regulamentações e tecnologia torna-se um diferencial.
Gestão integrada e transferência de risco passam a influenciar decisões centrais: alocação de capital, definição de apetite ao risco, governança e velocidade de resposta a choques relevantes. Para gestores do setor de energia, a questão não é apenas como reagir a eventos adversos, mas como estruturar decisões hoje que ampliem resiliência, preservem valor e sustentem crescimento em um ambiente de transformação contínua.
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