A judicialização tornou-se parte relevante da dinâmica da saúde suplementar no Brasil. O crescimento das ações contra planos de saúde afeta custos assistenciais, provisões técnicas e previsibilidade financeira, com reflexos na gestão das operadoras e, indiretamente, no valor das mensalidades.
Dados recentes indicam que essa tendência deve permanecer no médio e longo prazo, exigindo uma abordagem mais estruturada do setor.
Um fenômeno em expansão
Estudo técnico do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), publicado em dezembro de 2025, projeta que o Brasil poderá registrar cerca de 1,2 milhão de novos processos por ano relacionados à saúde suplementar até 2035.
O relatório Diagnóstico da Judicialização da Saúde Pública e Suplementar, do Conselho Nacional de Justiça, também aponta crescimento de 40% no uso de notas técnicas do sistema e-NatJus em um ano. O dado indica avanço na especialização das decisões envolvendo medicamentos e procedimentos.
Esse movimento sinaliza maior presença do Judiciário na resolução de conflitos entre beneficiários e operadoras.
Onde se concentram os conflitos
A maior parte das ações judiciais está associada a quatro temas:
- Negativas de cobertura
Incluem medicamentos de alto custo, terapias fora do rol da ANS ou procedimentos não previstos contratualmente. - Situações de urgência
Casos em que beneficiários consideram que a via administrativa não respondeu no tempo esperado. - Interpretação contratual
Discussões sobre carências, rede credenciada e limites de cobertura. - Reajustes e rescisões
Questionamentos sobre aumentos percebidos como excessivos ou cancelamentos unilaterais.
O padrão sugere que a judicialização está ligada tanto a aspectos regulatórios quanto a expectativas e comunicação com beneficiários.
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Impactos financeiros para as operadoras
Ao determinar coberturas fora do planejamento original, o Judiciário influencia a aplicação prática das regras da saúde suplementar. Entre os principais efeitos estão:
- aumento da sinistralidade;
- necessidade de provisões para contingências judiciais;
- inclusão de tratamentos sem previsão atuarial;
- maior complexidade na precificação dos planos.
O resultado é pressão sobre previsibilidade financeira e gestão de longo prazo. Esse contexto exige adaptação contínua em governança, compliance e gestão de riscos.
Caminhos para reduzir conflitos
Como responsáveis pela maior parte dos contratos com as operadoras, as empresas têm papel importante na mediação de expectativas e orientação dos beneficiários.
Na prática, organizações podem contribuir para diminuir conflitos ao:
- Explicar com clareza o funcionamento do plano (coberturas, carências, rede credenciada e canais de atendimento).
- Estruturar fluxos internos para apoiar colaboradores em dúvidas e negativas de cobertura antes da via judicial.
- Promover educação em saúde e uso consciente do benefício para ampliar a compreensão sobre protocolos clínicos e jornada assistencial.
- Integrar RH, benefícios e corretora na gestão do plano para facilitar a análise de casos recorrentes, identificação de ruídos de comunicação e melhoria contínua da experiência do beneficiário.
- Estimular canais formais de resolução de conflitos, como ouvidorias e segunda opinião médica, antes da judicialização.
Judicialização como tema de gestão compartilhada
A tendência de crescimento das ações indica que a judicialização seguirá relevante nos próximos anos. Ao integrar comunicação, governança de benefícios e gestão de riscos, é possível reduzir disputas evitáveis e melhorar a previsibilidade do sistema.
A incorporação do risco judicial ao planejamento passa, portanto, por uma atuação coordenada entre todos os agentes da saúde suplementar, com foco em transparência, diálogo e decisões baseadas em dados.


