O encerramento da política de desoneração da folha de pagamentos começa a gerar efeitos diretos no Transporte Rodoviário de Cargas (TRC). Em um setor responsável por mais de 65% da logística nacional e historicamente marcado por margens reduzidas, a mudança eleva custos trabalhistas e exige revisão da estrutura operacional e financeira das transportadoras.
O que muda com o fim da desoneração
A desoneração permitia que empresas intensivas em mão de obra recolhessem a contribuição previdenciária patronal sobre a receita bruta, e não sobre a folha salarial. Com a reversão da regra, a contribuição volta a incidir integralmente sobre a folha de pagamento.
Para o TRC, onde a mão de obra representa parcela relevante dos custos, a mudança altera de forma direta a equação financeira do negócio.
Impacto imediato na estrutura de custos
Simulações do Departamento de Custos Operacionais e Pesquisas Técnicas e Econômicas (Decope), da NTC&Logística, indicam que o retorno da contribuição plena pode elevar os custos operacionais em cerca de 1,5% ao ano, com impacto acumulado próximo de 3%.
Esse aumento ganha relevância em um cenário no qual já existe defasagem superior a 10% entre o valor do frete praticado e o custo real da operação. A capacidade de repasse imediato aos contratantes tende a ser limitada, pressionando a rentabilidade do setor.
Como consequência, o setor pode enfrentar:
- compressão de margens
- redução da capacidade de investimento em frota e tecnologia
- maior pressão sobre caixa e capital de giro
Esse ambiente tende a exigir disciplina financeira mais rigorosa e pode acelerar movimentos de consolidação.
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Riscos ampliados no novo contexto
A pressão sobre custos tende a ampliar exposições já existentes no setor:
- Risco trabalhista: maior peso da folha exige atenção redobrada à conformidade e à gestão de passivos.
- Risco operacional: atrasos em manutenção, treinamento ou renovação de frota podem aumentar sinistros e interrupções.
- Risco de crédito e liquidez: prazos de pagamento alongados afetam o fluxo de caixa, especialmente em empresas menos capitalizadas.
- Risco de continuidade: negócios com estrutura financeira mais sensível tornam-se mais vulneráveis a oscilações.
Revisões estratégicas necessárias
Diante do novo cenário, transportadoras precisam reavaliar:
- estrutura de custos e contratos de frete;
- modelo de contratação de motoristas;
- gestão de caixa e provisões;
- eficiência operacional e investimentos prioritários.
O fim da desoneração altera a relação entre custo, controle e risco no TRC. A capacidade de adaptação, baseada em dados e governança, tende a ser determinante para a sustentabilidade do setor.


