O debate sobre bots deixou de ser técnico e passou a ser estratégico. Dados recentes da Akamai Technologies indicam que o Brasil concentrou 408 milhões de eventos relacionados a bots de IA, liderando a América Latina com ampla margem.
Já o relatório Bad Bot Report 2025, da Imperva (hoje parte da Thales Group), aponta que mais de 50% do tráfego global da internet é automatizado, sendo 37% classificado como malicioso.
Esses números não indicam apenas crescimento tecnológico. Revelam uma transformação silenciosa: a automação, quando combinada com IA, passou a atuar diretamente sobre fluxos críticos de negócio.
Bots: quando automação se transforma em risco
Bots não são, por definição, uma ameaça. Ferramentas legítimas de indexação, monitoramento ou integração fazem parte da economia digital. O problema surge quando a automação é direcionada a explorar lógicas de negócio, e não apenas vulnerabilidades técnicas.
Hoje, o risco não está restrito a invasões clássicas. Está na exploração de:
- Processos de autenticação
- Fluxos de pagamento
- APIs expostas
- Políticas de desconto
- Sistemas de cadastro
O relatório da Cloudflare estima que cerca de 40% do tráfego web mundial é composto por bots, e uma parcela relevante desse volume simula comportamento humano, tornando a detecção mais complexa.
Os setores mais expostos — e por quê
Serviços financeiros
O setor financeiro concentra riscos elevados porque reúne três características críticas:
- Alto volume transacional
- APIs amplamente integradas (open finance, pagamentos instantâneos)
- Dados sensíveis e monetizáveis
Segundo a Imperva, ataques de Account Takeover (ATO) cresceram 40% em um ano, muitos deles automatizados.
No contexto brasileiro — marcado por Pix, digitalização bancária massiva e fintechs — bots são utilizados para:
- Testes automatizados de credenciais
- Enumeração de contas
- Exploração de falhas na lógica de limites e autenticação
- Fraudes em APIs
E-commerce e varejo digital
O varejo online sofre com:
- Compra automatizada de itens limitados
- Testes de cartões (carding)
- Abuso de cupons
- Scraping de preços
Bots podem inflar acessos, alterar dados de conversão e comprometer decisões estratégicas baseadas em analytics.
Saúde e hospitalidade
Relatórios setoriais indicam crescimento relevante de tráfego automatizado nesses segmentos, especialmente em:
- Sistemas de agendamento
- APIs de consulta
- Plataformas de benefícios
A motivação costuma ser fraude, revenda de acesso ou exploração de dados pessoais.
Governo e serviços públicos
No setor público, bots são utilizados para:
- Extração massiva de dados
- Sobrecarga de sistemas
- Manipulação de consultas automatizadas
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O que líderes corporativos precisam observar agora
- Visibilidade sobre tráfego automatizado
Não basta saber que há bots. É preciso entender onde interagem com fluxos críticos. - Proteção de APIs como prioridade estratégica
Relatórios recentes indicam que quase metade dos bots avançados hoje ataca APIs diretamente. - Proteção da lógica de negócio
Fraudes modernas exploram regras mal definidas, não apenas vulnerabilidades de código. - Governança orientada a risco, não apenas compliance
O foco deve migrar de “bloquear ataques” para “proteger fluxos que geram receita”. - Correlação entre segurança e indicadores financeiros
Volume de bots precisa ser correlacionado com:
O risco digital deixou de ser técnico e passou a ser estratégico
O avanço dos bots no Brasil não é um fenômeno isolado nem exclusivamente tecnológico. Ele reflete o amadurecimento da economia digital e, ao mesmo tempo, expõe fragilidades estruturais na proteção de fluxos críticos. Automação deixou de ser apenas eficiência. Quando mal direcionada, tornou-se um vetor sofisticado de risco empresarial.


