A digitalização e a automação de tarefas não são tendências futuras: elas já transformam hoje a organização, performance e riscos no trabalho. O foco para líderes não é a tecnologia isoladamente, mas seus efeitos sobre pessoas, saúde e resultados do negócio.
O impacto já mensurável do trabalho digital
Relatórios recentes indicam que a intensificação do trabalho digital está mudando a capacidade produtiva das equipes.
O Microsoft Work Trend Index 2025 aponta que colaboradores recebem cerca de 275 interrupções por dia, aproximadamente uma a cada dois minutos durante o horário de trabalho. Comunicação (e-mails, reuniões e chats) já consome 60% do tempo de trabalho, restando 40% para atividades de criação e análise.
O estudo também mostra que:
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48% dos colaboradores e 52% das lideranças descrevem o trabalho como “caótico”;
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mensagens enviadas fora do expediente cresceram 15% em um ano;
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o excesso de comunicação aumenta a carga cognitiva e a taxa de erros.
Esse cenário tem sido chamado de “dívida digital”: o acúmulo de interações e trocas que reduz a capacidade de foco e tomada de decisão.
Pressão digital já aparece nos indicadores de saúde
Pesquisas internacionais reforçam que o aumento da carga cognitiva e do volume de trabalho digital está associado a riscos psicossociais.
Um estudo da ISACA (2025) com profissionais de TI na Europa identificou que:
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73% relatam estresse ou burnout relacionado ao trabalho;
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61% atribuem o estresse ao excesso de carga de trabalho;
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prazos curtos, falta de recursos e gestão inadequada aparecem como fatores relevantes.
Outro levantamento sobre transformação digital aponta que 64% dos trabalhadores do conhecimento afirmam ter sido impactados negativamente pela tecnologia no último ano, citando sobrecarga digital, notificações constantes e pressão para permanecer conectado.
Esses dados mostram que a digitalização não reduz a exigência humana: ela reconfigura a natureza da demanda, tornando o trabalho menos repetitivo e mais cognitivo.
No Brasil, o tema virou obrigação regulatória
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) reforça, desde maio de 2025, que empresas devem identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais dentro da gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST).
Entre os fatores citados pelo Ministério do Trabalho estão:
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metas excessivas e jornadas extensas
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falta de autonomia ou suporte
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conflitos interpessoais e assédio
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organização inadequada do trabalho
A inclusão explícita desses riscos no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais marca uma mudança importante: o tema deixa de ser apenas cultural ou voluntário e passa a integrar compliance trabalhista e gestão de risco corporativo.
O que muda no risco organizacional
| Antes | Agora |
|---|---|
| Riscos físicos e operacionais predominantes | Crescimento de riscos cognitivos e psicossociais |
| Produtividade ligada a volume de tarefas | Produtividade ligada a foco, qualidade e decisão |
| Tecnologia vista como ganho de eficiência | Tecnologia como fator de risco e de performance |
Na prática, isso significa que modelos de gestão desenhados para o trabalho industrial ou administrativo tradicional podem não ser suficientes para o trabalho digital intensivo.
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Agenda prática para lideranças
A literatura e os dados convergem para quatro frentes prioritárias:
1) Redesenho do modelo de trabalho
Revisar ritmo, volume de comunicação, disponibilidade e interfaces digitais para reduzir interrupções e carga cognitiva.
2) Integração da saúde mental à gestão de risco
A NR-1 exige monitoramento e planos de ação: o tema passa a ser parte da governança.
3) Capacitação de lideranças
Gestão de performance precisa evoluir para ambientes com alta autonomia, complexidade e trabalho híbrido.
4) Integração entre tecnologia, pessoas e estratégia
Ferramentas digitais geram valor quando acompanhadas de mudanças organizacionais e culturais.
O que está em jogo até 2030
A digitalização amplia a capacidade produtiva das organizações, mas também aumenta a exposição a riscos invisíveis, especialmente os ligados à organização do trabalho.
Empresas que revisarem seus modelos de gestão agora tendem a ganhar:
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maior sustentabilidade da performance
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redução de riscos trabalhistas e de saúde
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maior capacidade de retenção e engajamento
A discussão sobre digitalização, hoje, é uma agenda estratégica de gestão.


