A obesidade deixou de ocupar posição periférica para se tornar um vetor estrutural de pressão assistencial na saúde suplementar brasileira.
É o que revela o Texto para Discussão nº 117 – 2026, intitulado “Evolução dos registros de obesidade e da utilização de consultas nutricionais na saúde suplementar no Brasil: análise de 2015 a 2024”, elaborado com base em dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Crescimento acelerado após 2020
As taxas de eventos assistenciais cujo CID principal corresponde à obesidade cresceram ao longo de toda a série histórica. A aceleração ocorre a partir de 2020.
Entre mulheres, a taxa passou de aproximadamente 55 para 128 eventos por 100 mil beneficiárias entre 2015 e 2024 — aumento acumulado de 132%.
Entre homens, o crescimento foi de 24 para 36 por 100 mil beneficiários (47%).
A maior carga assistencial concentra-se nos adultos de 20 a 59 anos — faixa economicamente ativa.
O estudo sugere ainda que a pandemia de Covid-19 funcionou como catalisador de tendências já existentes, agravando padrões alimentares inadequados, sedentarismo e fatores emocionais associados ao ganho de peso.
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Explosão nas consultas nutricionais
Se os registros de obesidade cresceram, as consultas com nutricionistas avançaram em ritmo muito superior.
Entre 2015 e 2024:
- Mulheres: de 304 para 7.465 consultas por 100 mil beneficiárias (+2.359%)
- Homens: de 149 para 3.667 por 100 mil (+2.361%)
O crescimento ocorre em todas as faixas etárias, com destaque novamente para adultos de 20 a 59 anos.
Parte dessa expansão pode estar associada à decisão regulatória da ANS, em 2022, que autorizou número ilimitado de consultas com nutricionistas na saúde suplementar.
GLP-1 e o novo dilema financeiro
O estudo dedica atenção especial aos agonistas do receptor de GLP-1.
Esses medicamentos foram inicialmente indicados para diabetes tipo 2, mas demonstraram eficácia relevante na perda de peso.
Ensaios clínicos publicados no New England Journal of Medicine mostraram reduções superiores a 10–15% do peso corporal com moléculas como a semaglutida.
Mais recentemente, revisão sistemática publicada no BMJ (2026) confirmou um ponto crítico: há reganho significativo de peso após a interrupção do tratamento.
Pressão direta sobre a sinistralidade
Três fatores passam a atuar simultaneamente:
- Aumento da prevalência e dos registros assistenciais
- Expansão do uso de serviços multiprofissionais
- Incorporação de terapias de alto custo
A combinação tende a elevar a sinistralidade e pressionar reajustes, especialmente em planos coletivos empresariais.
A obesidade passa a ocupar posição semelhante à de outras condições crônicas estruturantes, como diabetes e doenças cardiovasculares.
O que muda para a gestão de saúde
O estudo aponta direções estratégicas claras.
- Gestão orientada por dados
Uso sistemático de bases assistenciais para identificar grupos de risco, padrões de utilização e efetividade das intervenções. - Modelos integrados de cuidado
Integração entre nutricionistas, médicos, educadores físicos e suporte em saúde mental, evitando intervenções isoladas. - Avaliação rigorosa de tecnologias
Análises de custo-efetividade antes da ampliação indiscriminada do acesso a terapias farmacológicas de alto custo. - Monitoramento longitudinal
Acompanhamento contínuo de desfechos clínicos e financeiros.
Um problema estrutural
A obesidade já é determinante estrutural da demanda na saúde suplementar brasileira. A chamada “virada farmacológica” com os agonistas de GLP-1 amplia alternativas terapêuticas — mas redefine o debate sobre acesso, sustentabilidade e organização do cuidado.
Para gestores, o desafio não é apenas tratar a obesidade. É estruturar modelos assistenciais capazes de sustentar o tratamento no médio e longo prazo.


