A inteligência artificial já decide crédito, apoia diagnósticos médicos, organiza processos judiciais e conduz veículos com assistência automatizada. A pergunta deixou de ser futurista e tornou-se urgente: quando a IA erra, quem responde?
Os tribunais começaram a oferecer respostas concretas e a mensagem central é clara: a máquina não responde. Pessoas e empresas sim.
O aumento dos litígios envolvendo IA
O volume de disputas judiciais relacionadas a falhas ou impactos de sistemas de IA cresce rapidamente. Nos Estados Unidos, mais de 100 ações foram registradas em 2024, quase o dobro do observado dois anos antes.
O dado sinaliza uma mudança importante: a discussão saiu do campo regulatório e passou para a prática judicial.
Tribunais aplicam regras tradicionais
Um dos pontos mais relevantes é que o Judiciário não está aguardando uma “lei específica de IA” para decidir. Em vez disso, vem aplicando princípios jurídicos já consolidados.
Responsabilidade profissional permanece
Em 2025, advogados foram multados após apresentarem petições com decisões inexistentes geradas por IA. O entendimento foi direto: o uso da tecnologia não elimina o dever profissional de verificação.
A IA é considerada ferramenta, não substituta da responsabilidade humana.
Responsabilidade por produto defeituoso
No setor automotivo, um júri na Flórida determinou indenização de US$ 243 milhões após acidente fatal envolvendo sistema de assistência à condução.
A decisão aplicou princípios clássicos de responsabilidade por produto defeituoso: a presença de automação não afasta o dever de segurança do fabricante.
Os precedentes indicam uma tendência clara: quanto maior o impacto da tecnologia, maior o nível de exigência jurídica.
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Saúde e chatbots ampliam o debate
Levantamentos europeus indicam que cerca de 40% das reclamações envolvendo IA estão relacionadas ao setor de saúde, especialmente em sistemas que auxiliam diagnósticos e decisões clínicas.
Nos Estados Unidos, ações judiciais também passaram a discutir a responsabilidade de empresas por interações de chatbots associadas a danos graves. Esses casos ainda estão em tramitação, mas podem redefinir os limites da responsabilidade quando sistemas conversacionais influenciam comportamentos sensíveis.
O foco jurídico não está na autonomia da máquina, mas na previsibilidade do risco e no dever de mitigá-lo.
Limitação contratual sob escrutínio
Grande parte dos fornecedores de IA já tenta limitar sua responsabilidade por meio de cláusulas contratuais. Estimativas indicam que cerca de 88% incluem esse tipo de proteção.
Entretanto, quando há dano ao consumidor ou risco à segurança, tribunais tendem a revisar essas cláusulas com rigor. Em contextos de maior risco, a responsabilidade pode ser ampliada.
Na prática, empresas que adotam IA não estão apenas contratando tecnologia, estão assumindo nova exposição jurídica.
Brasil acompanha a tendência
No Brasil, ainda não há casos de grande repercussão envolvendo indenizações por IA autônoma. No entanto, o arcabouço jurídico já permite responsabilização com base em normas de defesa do consumidor, atividade de risco e proteção de dados.
À medida que sistemas automatizados ganham espaço em bancos, hospitais e serviços públicos, disputas semelhantes tendem a chegar ao Judiciário brasileiro.
O cenário internacional funciona como um termômetro do que pode ocorrer localmente.
O que já está claro para empresas
Os precedentes recentes apontam três direções:
- IA não possui personalidade jurídica;
- empresas desenvolvedoras e usuárias podem ser responsabilizadas;
- profissionais continuam obrigados a supervisionar sistemas automatizados.
Autonomia tecnológica não significa autonomia jurídica.
Governança de IA deixa de ser diferencial
Diante do avanço dos litígios, organizações passaram a adotar medidas mais estruturadas de governança:
- Auditoria de modelos
- Registro de decisões automatizadas
- Supervisão humana ativa
- Avaliação prévia de risco
- Revisão contratual estratégica
A tendência é objetiva: governança de IA deixa de ser diferencial e passa a ser requisito de proteção jurídica.
Um novo padrão de responsabilidade
A inteligência artificial amplia eficiência, mas também amplia impacto. E impacto gera responsabilidade.
Os tribunais começam a consolidar um entendimento consistente: a inovação é bem-vinda, mas não substitui o dever de cuidado.
Para empresas e profissionais, o recado é direto: usar IA exige estratégia, transparência e responsabilidade proporcional ao risco.


